quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

THRASH FUNK: MORDRED

Lo-Cal, Hi-Fiber



Se se fôr a São Francisco vai-se com flores no cabelo. Eram essas as palavras cantadas por Scott McKenzie naquela que se tornou uma das canções mais enervantes da hippilhada. Ainda por cima a letra da maldita coisa, são uns balbucianços sem grande sentido mas que dão a entender que a geração dos amantes da paz e do amor reconhece-se por ser florida, ou uma merda do género.




É por causa dessa história das florzinhas, icónica da contracultura hippie, que essa cidade da Gringolândia se tornou um centro de activistas de defesa, apoio e orgulho das diversas minorias e diferenças, logo um um bom sítio para crossovers e crossdressers.


Epá, mas experimentem lá passear por Polk Gulch (que é o Conde Redondo lá do sítio) com grinaldas na cabeça, a ver o que é que vos acontece... 
O mais provável é acabarem a dar ao rabo e, com sorte, talvez ganhem uns trocos.



E há mais alguma coisa de interesse a dizer sobre São Francisco? Hum, vejamos... Pois... Tem uma ponte parecida com a nossa ponte 25 de Abril (Salazar não se diz, que é reaccionário). E...

Aaaah! Pois 'tá claro! Foi na zona da Bay Area de São Francisco que surgiu a expressão mais forte do Thrash Metal. Claro que isso é um acontecimento histórico menor mas não me posso esquecer que este é um blog sobre música e não de paneleirices.

Então, como é que se conjuga o melhor desses dois mundos, segundo a associação lógica que já antes estabeleci entre o crossdressing e o crossing over musicalmente? Ora, em São Francisco sê franciscano logo, em vez de crossovar tocando Hardcore afunkalhado, crossôva-se tocando Thrash Funk Metal. E é neste contexto que vamos falar dos Mordred.

Já agora, ficam a saber que o Mordred é um personagem do ciclo arturiano, mais precisamente um vilão, filho incestuoso do Rei Artur e da sua meia-irmã Morgana Le Fay. E, depois disto, ainda tenha alguém a lata de me vir dizer que as minhas conversas sobre drogas, funkeiros, prostitutas e travestis são um deboche!

Os Mordred, a banda não os guerreiros, eram uns rapazes simpáticos que se tentavam integrar no meio dos thrashers rufias da bay Area escondendo, para tal, as suas verdadeiras inclinações. E que mais podiam eles fazer, rodeados de homens duros e fodidos para a porrada (pois o que os thrashers mais gostavam de fazer era ir atrás dos travestis do Glam para lhes desfazer a permanente)?

Assim, os Mordred, para não destoarem, lançaram um primeiro álbum de Thrash Metal: «Fool's Game», em 1989. Este, por competente que seja, perder-se-ia no meio de dezenas de melhores exemplos de Bay Area Thrash, não fosse pelas duas músicas Funk nele incluídas: o original "Everyday's a Holiday" e a reinterpretação de "Super Freak", do pervertido sexual cocainómano Rick James. Estas funkalhadas eram floreadas pelos scratches do DJ de serviço.





Já agora, aproveitando que tenho a vossa atenção e que vou embalado, espeto aqui também o "Super Freak", mas na versão original do Rick James, cujo teledisco é um bom exemplo do kitsch do Funk cocado.




No final dos anos 80, em nome do espírito crossover que animava muitas bandas de Thrash gringas (e não só), houve algumas experiências Funk por parte daquelas, desde o ajavardanço dos Nuclear Assault com "Funky Noise" a alguma integração de ideias e harmonias funkeiras pelos Death Angel. Sim, porque Crossover, implica passar para o outro lado - o intercâmbio não pode ser resumido ao Punk e ao Metal, como já foi antes escrito nestas páginas.

No entanto, nenhuma destas bandas deu o passo seguinte que os Mordred deram, saindo do armário e assumindo totalmente o seu Thrash Funk Metal, no segundo álbum, «In This Life», de 1991.

Repleto de slaps de baixo, breaks funkeiros, vocalizações de rap e scratchalhada quanto baste (o DJ agora está na banda a tempo inteiro), o disco mesmo assim não abandona as suas raízes, sendo essencialmente uma obra de Thrash Metal bastante técnico.  
É como se os moços se estivessem a passear por Polk Gulch, vestidos a rigor e com a depilação feita, mas não quisessem disfarçar a barba, podendo sempre regressar para os braços dos companheiros de origem que, como é sabido, sendo homens a sério, exigem que os seus tenham a barba rija.




Assim, o travestimento destes thrashers funkeiros foi conseguido mas é como se a equipa de psicólogos que os avaliou não tivesse dado a luz verde para a operação completa. 
Esse tão desejado sonho começa, finalmente, a tomar forma no ano seguinte, 1992, com o lançamento do EP de seis músicas «Vision».
Neste, as raízes thrashalhosas foram definitivamente abandonadas, em favor de um Funk Metal de contornos progressivos.

Para mal dos pecados dos moços, o suavizar do som chegou demasiado tarde para apanharem o comboio do sucesso dos Living Colour e afins, até porque, então, já o panorama musical mudara para o Grunge e para o Rap Metal. 
E claro que serem editados pela alemã Noise Records, que não devia saber muito bem o que fazer com estes transformistas, também não ajudava nada.





Em 1994, os Mordred, autênticas Marias-vão-com-as-outras, lançam o seu último álbum, «The Next Room», procurando desta vez adaptar-se à sonoridade Grunge – que, por essa altura, já estava a implodir… 
Esta falta de timing crónica, bem como a incapacidade da Noise Records para promover o disco são de lamentar, uma vez que este é o melhor trabalho da banda e passou completamente despercebido. 

Neste álbum, conjugam-se, de forma equilibrada, as diferentes tendências já antevistas (Thrash, Funk, divagações progressivas) com um recém-descoberto gosto por um Hard Rock mais tradicional, mas aproximando-se do chamado Rock alternativo, originando um disco de canções memoráveis.



Para que tão delicada operação fosse um êxito a banda teve que amputar um dos seus membros originais, o vocalista Scott Holderby, substituindo-o por um cantor mais adequado à sua verdadeira e desejada identidade musical, Paul Kimball. Esta excisão era uma necessidade óbvia, uma vez que a nova voz, simultaneamente rugosa e melódica, ilustra muito melhor a dualidade de género dos Mordred. 



E foi assim que os Mordred, na sua pele de Maria Galdéria, se deixaram conduzir, nos braços do seu galã rumo ao esquecimento...
O aprumado senhor que, no seu smoking, se fazia passar por um representante das grandes editoras era, afinal, um proxeneta de North Beach e é por lá que, desde então, os Mordred podem ser vistos a actuar todas as noites, tocando covers funkeiras enquanto tentam evitar os apalpões dos bêbados.




quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

CROSSOVER NOT CROSSDRESSER

It's the size of your heart, 

not the length of your hair



CROSSOVER. Eis uma palavra muito mal entendida nestes círculos dedicados à música. Excepção seja feita para a minha ilustre pessoa que nunca se engana e raramente tem dúvidas, ao contrário do presidente.

Quando se pensa em Crossover, musicalmente, está-se a falar é de Crossover Thrash – uma iguaria em particular – e não em termos gerais. A sonoridade referida é, portanto, ou o Thrash Metal apunkalhado ou o Hardcore metalizado.



O vídeo de “Trapped”, dos Crumbsuckers, é um dos melhores exemplos ilustrativos do “espírito” Crossover Thrash. Melhor só o «Live at the Ritz» dos D.R.I.





 


 
Mas, só porque me vêem para aqui a falar de crumbsuckers e dê-érre-is, que não vos passe pela cabeça que estou a fraquejar, hã? O que me interessa é falar do Metal de que os hévis não gostam, ou melhor, nem sequer consideram Metal. Mais ainda, o meu objectivo é convencer-vos de que O VERDADEIRO CROSSOVER É O METAL ALTERNATIVO. 
Circunscrever o Crossover à thrashalhada punkalhosa é limitador. E o ridículo da situação é que foi criada a posteriori pelos ouvintes, não pelos músicos. Pelo contrário, destes últimos, os mais criativos, procuraram introduzir os elementos mais díspares na sua música indo para lá do simples intercâmbio entre Punk e Metal. Se é para passar para o outro lado que seja feita a operação completa, não basta vestir as roupas de outro género. É por isso que há homens de barba rija, que ficam enojados com o mariconço de lingerie vermelha da foto de cima mas que são capazes de se babar com a Roberta Close. 
É uma boa comparação, não é?
Mas, por perfeita que seja, a transformação do Roberto em Roberta nunca é total... Tal como o Crossover Thrash não deixa de ser Punk Metal, no entanto, é a essas bandas e à sua vontade de experimentar novas sensações que devemos um milagre genético: a possibilidade de criação de um género novo que não é Punk nem Metal, Homem nem Mulher. Hum... Pois... Enfim, um género novo, herdeiro de ambos e de todos mais quantos os que participaram numa orgia de influências.




 
Digam lá que esta não é uma associação de ideias brilhante? Isto é que é a verdadeira crítica musical, estabelecendo relações entre fenómenos distintos da cultura popular...

Já agora... E DEUS CRIOU A MULHER!




Sim, sim... Eu sei que isto já não tem nada a ver, mas o filme até é bonzinho e a Brigitte Bardot também não é nada má de se ver, por isso façam um favor a vós próprios e vejam-no quando puderem. 
E EM FRANCÊS, PORRA!

Os preliminares para a delicada operação foram realizados por um dos nomes maiores do género, os Suicidal Tendencies. Skaters  e membros de um gang que devia andar aos tiros lá por Venice, na Califórnia (daí a origem da palavra GANGBANG), os SxTx lançam, em 1983, o seu primeiro álbum que é um dos discos mais perfeitos de Hardcore. Ponto final parágrafo.


Foi o segundo álbum dos Suicidal Tendencies, «Join the Army», de 1987, que transformou o Crossover Thrash num fenómeno mundial - visto que os muchachos não mostraram princípios nem dignidade alguma e venderam-se descaradamente, permitindo que o disco fosse distribuído por uma multinacional! Mas e que esperavam vocês de uns gangbangers que, como é evidente, papam tudo o que lhes aparece pela frente?



 
Mas, para este artigo, não me interessam cá as thrashalhadas, interessa-me o Rap! O Rap a que o vocalista Mike Muir se refere na letra:

Took it to the street, rap to the people we meet
 Now we're rocking out hard to the Suicidal beat

Não é preciso ouvir com muita atenção para se perceber que Muir está a rapar (Claaaro... Um dos primeiros passos para a operação de crosscoiso é rapar as pernas!). Até o imagino a cantar a fazer aquele gesto com a mão que os rappers fazem para marcar a cadência. Esse gesto, não o abanico que o larilas da lingerie vermelha lá para cima deve fazer quando sai à rua com a malinha!
No mesmo verso falam em "Suicidal Beat". Pois... Esta é uma banda com um som realmente próprio. Se, já desde o início, o seu som era distinto das demais bandas de Hardcore, este foi incorporando outras sonoridades e nem todas elas de origem punkometaleira: as vocalizações de Muir, entre o cantado e o falado e, sem dúvida, rapado; a guitarra solo a providenciar harmonias constantemente e, last but not least, a secção rítmica de raiz Funk. Sim, isso mesmo, FUNK! Ora, não estou a dizer que os Suicidal Tendencies sejam uma banda de Metal funkeiro, afirmo sim é que o seu Suicidal Beat é uma mistura de géneros diversos que origina aquela coisa rara: um som original. 


E onde este fica completamente definido é nos dois primeiros álbuns dos anos 90, «Lights Camera Revolution» (1990) e «The Art of Rebellion» (1992). E também não estou a dizer que estes são necessariamente os melhores (o Art não é de certeza)! Sou maluco mas não sou surdo.


 
E o Thrash já lá vai, claro está. Assim, avanço com a proposição de que os Suicidal Tendencies foram uma das bandas que lançaram as sementes para o transformismo do Heavy Metal nos anos 90: em que se dá aquilo a que eu chamo Metal Alternativo, ou seja, Crossover livre de restrições estílisticas. Fusões diversas permitem alternativas diferentes.


Mas não pensem que a rapaziada suícida não gosta de funkar e de se saracotear na pista de dança... Onde é que acham que eles arranjavam gajas para gangbangar? Duh... 
Foi para dar vazão a essas tendências funkistas que o Cyco Miko (Muir) e outros SxTx formaram os Infectious Grooves. Este projecto paralelo (que, ao que parece, continua) ainda deixou quatro álbuns, entre 1991 e 2000, de Funk Metal a soar nitidamente a Suicidal - centrado no baixo de Robert "Metallica" Trujillo - mas com o sentido de humor barrasqueiro (e por vezes irritante) que muitas dessas bandas adoptavam. Não é tão apetitoso como a banda-mãe mas funka-se com gosto. 


As melhores iguarias são o primeiro disco, «The Plague That Makes Your Booty Move... It's the Infectious Grooves», de 1991, e o «Groove Family Cyco», de 1994, que será, porventura, o mais pesado.


O problema mais sério das perversões funkeiras e gangbangueiras é que, explicam os psiquiatras, a satisfação dessas necessidades pode levar os indivíduos a desviarem-se da sua natureza metalopunkalhosa.

Foi para evitar tal risco, que Mike Muir lançou-se também num projecto a solo, sob o pseudónimo Cyco Miko, onde pôde dar vazão às suas urgências Punk Rock e, desse modo, aplacar as tormentas infligidas pelo seu super-ego. Ora, essa cena de gajos já a dar para o entradote a tentarem recuperar a juventude perdida e as suas origens punk, geralmente dá merda. 

Neste caso, até nem é muito mau, apenas medíocre, como se pode ouvir no álbum de 1996, «Lost My Brain! (Once Again)».  Há mais um, de 2001, mas nem sequer o quis ouvir.

 

 

E depois não lhe serviu de nada, pois é mito urbano de que o PSYCHO MIKO, continua a funkar pelas discotecas de alterne de Venice Beach, desta vez vestido de gaja, assim parecido com o serial-killer do Silêncio dos Inocentes, a ver se seduz homens daqueles mesmo a sério, não para os gangbangar, mas para os retalhar aos bocadinhos... 

METAL \,,/