quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

CROSSOVER NOT CROSSDRESSER

It's the size of your heart, 

not the length of your hair



CROSSOVER. Eis uma palavra muito mal entendida nestes círculos dedicados à música. Excepção seja feita para a minha ilustre pessoa que nunca se engana e raramente tem dúvidas, ao contrário do presidente.

Quando se pensa em Crossover, musicalmente, está-se a falar é de Crossover Thrash – uma iguaria em particular – e não em termos gerais. A sonoridade referida é, portanto, ou o Thrash Metal apunkalhado ou o Hardcore metalizado.



O vídeo de “Trapped”, dos Crumbsuckers, é um dos melhores exemplos ilustrativos do “espírito” Crossover Thrash. Melhor só o «Live at the Ritz» dos D.R.I.





 


 
Mas, só porque me vêem para aqui a falar de crumbsuckers e dê-érre-is, que não vos passe pela cabeça que estou a fraquejar, hã? O que me interessa é falar do Metal de que os hévis não gostam, ou melhor, nem sequer consideram Metal. Mais ainda, o meu objectivo é convencer-vos de que O VERDADEIRO CROSSOVER É O METAL ALTERNATIVO. 
Circunscrever o Crossover à thrashalhada punkalhosa é limitador. E o ridículo da situação é que foi criada a posteriori pelos ouvintes, não pelos músicos. Pelo contrário, destes últimos, os mais criativos, procuraram introduzir os elementos mais díspares na sua música indo para lá do simples intercâmbio entre Punk e Metal. Se é para passar para o outro lado que seja feita a operação completa, não basta vestir as roupas de outro género. É por isso que há homens de barba rija, que ficam enojados com o mariconço de lingerie vermelha da foto de cima mas que são capazes de se babar com a Roberta Close. 
É uma boa comparação, não é?
Mas, por perfeita que seja, a transformação do Roberto em Roberta nunca é total... Tal como o Crossover Thrash não deixa de ser Punk Metal, no entanto, é a essas bandas e à sua vontade de experimentar novas sensações que devemos um milagre genético: a possibilidade de criação de um género novo que não é Punk nem Metal, Homem nem Mulher. Hum... Pois... Enfim, um género novo, herdeiro de ambos e de todos mais quantos os que participaram numa orgia de influências.




 
Digam lá que esta não é uma associação de ideias brilhante? Isto é que é a verdadeira crítica musical, estabelecendo relações entre fenómenos distintos da cultura popular...

Já agora... E DEUS CRIOU A MULHER!




Sim, sim... Eu sei que isto já não tem nada a ver, mas o filme até é bonzinho e a Brigitte Bardot também não é nada má de se ver, por isso façam um favor a vós próprios e vejam-no quando puderem. 
E EM FRANCÊS, PORRA!

Os preliminares para a delicada operação foram realizados por um dos nomes maiores do género, os Suicidal Tendencies. Skaters  e membros de um gang que devia andar aos tiros lá por Venice, na Califórnia (daí a origem da palavra GANGBANG), os SxTx lançam, em 1983, o seu primeiro álbum que é um dos discos mais perfeitos de Hardcore. Ponto final parágrafo.


Foi o segundo álbum dos Suicidal Tendencies, «Join the Army», de 1987, que transformou o Crossover Thrash num fenómeno mundial - visto que os muchachos não mostraram princípios nem dignidade alguma e venderam-se descaradamente, permitindo que o disco fosse distribuído por uma multinacional! Mas e que esperavam vocês de uns gangbangers que, como é evidente, papam tudo o que lhes aparece pela frente?



 
Mas, para este artigo, não me interessam cá as thrashalhadas, interessa-me o Rap! O Rap a que o vocalista Mike Muir se refere na letra:

Took it to the street, rap to the people we meet
 Now we're rocking out hard to the Suicidal beat

Não é preciso ouvir com muita atenção para se perceber que Muir está a rapar (Claaaro... Um dos primeiros passos para a operação de crosscoiso é rapar as pernas!). Até o imagino a cantar a fazer aquele gesto com a mão que os rappers fazem para marcar a cadência. Esse gesto, não o abanico que o larilas da lingerie vermelha lá para cima deve fazer quando sai à rua com a malinha!
No mesmo verso falam em "Suicidal Beat". Pois... Esta é uma banda com um som realmente próprio. Se, já desde o início, o seu som era distinto das demais bandas de Hardcore, este foi incorporando outras sonoridades e nem todas elas de origem punkometaleira: as vocalizações de Muir, entre o cantado e o falado e, sem dúvida, rapado; a guitarra solo a providenciar harmonias constantemente e, last but not least, a secção rítmica de raiz Funk. Sim, isso mesmo, FUNK! Ora, não estou a dizer que os Suicidal Tendencies sejam uma banda de Metal funkeiro, afirmo sim é que o seu Suicidal Beat é uma mistura de géneros diversos que origina aquela coisa rara: um som original. 


E onde este fica completamente definido é nos dois primeiros álbuns dos anos 90, «Lights Camera Revolution» (1990) e «The Art of Rebellion» (1992). E também não estou a dizer que estes são necessariamente os melhores (o Art não é de certeza)! Sou maluco mas não sou surdo.


 
E o Thrash já lá vai, claro está. Assim, avanço com a proposição de que os Suicidal Tendencies foram uma das bandas que lançaram as sementes para o transformismo do Heavy Metal nos anos 90: em que se dá aquilo a que eu chamo Metal Alternativo, ou seja, Crossover livre de restrições estílisticas. Fusões diversas permitem alternativas diferentes.


Mas não pensem que a rapaziada suícida não gosta de funkar e de se saracotear na pista de dança... Onde é que acham que eles arranjavam gajas para gangbangar? Duh... 
Foi para dar vazão a essas tendências funkistas que o Cyco Miko (Muir) e outros SxTx formaram os Infectious Grooves. Este projecto paralelo (que, ao que parece, continua) ainda deixou quatro álbuns, entre 1991 e 2000, de Funk Metal a soar nitidamente a Suicidal - centrado no baixo de Robert "Metallica" Trujillo - mas com o sentido de humor barrasqueiro (e por vezes irritante) que muitas dessas bandas adoptavam. Não é tão apetitoso como a banda-mãe mas funka-se com gosto. 


As melhores iguarias são o primeiro disco, «The Plague That Makes Your Booty Move... It's the Infectious Grooves», de 1991, e o «Groove Family Cyco», de 1994, que será, porventura, o mais pesado.


O problema mais sério das perversões funkeiras e gangbangueiras é que, explicam os psiquiatras, a satisfação dessas necessidades pode levar os indivíduos a desviarem-se da sua natureza metalopunkalhosa.

Foi para evitar tal risco, que Mike Muir lançou-se também num projecto a solo, sob o pseudónimo Cyco Miko, onde pôde dar vazão às suas urgências Punk Rock e, desse modo, aplacar as tormentas infligidas pelo seu super-ego. Ora, essa cena de gajos já a dar para o entradote a tentarem recuperar a juventude perdida e as suas origens punk, geralmente dá merda. 

Neste caso, até nem é muito mau, apenas medíocre, como se pode ouvir no álbum de 1996, «Lost My Brain! (Once Again)».  Há mais um, de 2001, mas nem sequer o quis ouvir.

 

 

E depois não lhe serviu de nada, pois é mito urbano de que o PSYCHO MIKO, continua a funkar pelas discotecas de alterne de Venice Beach, desta vez vestido de gaja, assim parecido com o serial-killer do Silêncio dos Inocentes, a ver se seduz homens daqueles mesmo a sério, não para os gangbangar, mas para os retalhar aos bocadinhos... 

METAL \,,/

 

 


 


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